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As consoantes do Inglês e do Português

Quando aqui falamos em consoantes, estamos nos referindo aos sons (fonemas) e não às letras do alfabeto (grafemas).

A produção de sons consoantes normalmente corresponde a pontos em que os órgãos articuladores interpõem-se ou aproximam-se e estreitam-se de forma a obstruir o canal vocálico. Estes pontos de articulação normalmente podem ser definidos com precisão, identificando facilmente as respectivas características de cada som produzido. Ao contrário das vogais, as quais são sons contínuos e uniformes, muitas vezes semelhantes mas quase nunca exatamente iguais entre duas línguas, as consoantes normalmente se equivalem a ponto de permitir fácil transferência ou, em alguns casos, não encontram a menor semelhança no outro idioma.

Consonantal positions

Portuguese consonant phonemes

Position B
I
L
A
B
I
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A
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A
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E
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A
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G
L
O
T
T
A
L
manner VL VD VL VD VL VD VL VD VL VD VL VD VL
stops p b n
e
v
e
r
t d k g o
c
c
u
r

i
n

i
n
t
e
r
j
e
c
t
i
o
n
s5
affricates occur only on the phonetic level 1
fricatives f v s z sh zh x
nasals m n ñ
retroflexes rarely occur in Portuguese2
laterals o
c
c
u
r
l lh
flaps Ð
trills R3
glides occur only on the phonetic level 4

Os fonemas consoantes do inglês ocorrem tais como nas palavras:

/p/ para ['paÐa]
/b/ bala ['bala]
/t/ tatu [ta'tu]
/d/ dado ['dadu]
/k/ coco ['kôku]
/g/ gato ['gatu]
/f/ faca ['faka]
/v/ vaca ['vaka]
/s/ sapo ['sapu]
/z/ zelo ['zelu]
/sh/ chave ['shavi]
/zh/ jato ['zhatu]
/m/ mala ['mala]
/n/ nenê [nê'nê]
/ñ/ ninho ['niñu]
/l/ lado ['ladu]
/lh/ olho ['ôlhu]
/Ð/ para ['paÐa]
/R/ ou /x/ rato ['Ratu] ou ['xatu]

Prováveis erros com consoantes

Aqui nos referimos a dois tipos de erro: erro fonético e erro fonológico.

Erro fonético é aquele que causa apenas sotaque estrangeiro, podendo tornar o falante cansativo ao nativo que o ouve.

Erro fonológico é aquele erro que pode causar mal-entendido na comunicação.

Estes são provavelmente os erros mais comuns com as consoantes do inglês de estudantes cuja língua materna é português.

A) A aspiração das oclusivas surdas do inglês /p/, /t/ e /k/, quando ocorrem em posição inicial de palavra ou de sílaba tônica, não têm equivalentes em português. A simples transferência das oclusivas /p/, /t/ e /k/ não aspiradas do português causará, em primeiro lugar, um evidente sotaque (erro fonético) e, em segundo lugar, a possibilidade de mal-entendido (erro fonológico), uma vez que poderão ser percebidas por aqueles que falam inglês como /b/, /d/ e /g/. A palavra pig [phIg], por exemplo, se for pronunciada como [pIg], sem aspiração, poderia ser confundida com a palavra big [bIg].

B) As oclusivas alveolares do inglês /t/ e /d/ correspondem em português a oclusivas cujo ponto de articulação não é exatamente alveolar, mas alveolar-dental, isto é, ligeiramente mais para a frente. Esta diferença, entretanto, não causa maiores problemas. O grande problema surge, tanto para estudantes de ESL como de PSL, quando /t/ e /d/ ocorrerem antes de /iy/ ou /I/, com forte probabilidade de erro fonológico. Em português (com exceção de alguns dialetos do nordeste brasileiro, de Santa Catarina e da região da fronteira gaúcha) não existe /ti/ nem /di/, uma vez que oclusivas alveolares são automaticamente palatalizadas na presença de vogal alta-frontal. Sempre que /t/ e /d/ ocorrem antes de /i/, transformam-se respectivamente em /tshi/ e /dzhi/, como nas palavras leite ['leytshi] e pode ['pódzhi]. Se isto for transferido ao inglês, neutralizará o contraste entre palavras como:

till [thIl] chill [tshIl]
tip [thIp] chip [tshIp]
dim [dIm] Jim [dzhIm]
deep [diyp] jeep [dzhiyp]

Uma vez que os fonemas /iy/ e /I/ do inglês têm uma alta carga funcional, isto é, ocorrem com muita freqüência, torna-se mais importante evitar a interferência deste hábito fonético do Português.

C) Todas as oclusivas, /p/, /b/, /t/, /d/, /k/ e /g/, as africadas /tsh/ e /dzh/, e as fricativas /f/, /v/, /Ø/, /ð/, /sh/ e /zh/, ocorrem em posição de final de palavra em inglês. Em português, entretanto, os fonemas correspondentes nunca ocorrem em tal posição. O resultado disto é que os brasileiros tenderão a acrescentar um som vogal a essas consoantes em final de palavra, de maneira que palavras como back [bæk] e knife [nayf] poderão vir a ser pronunciadas ['bæki] e ['nayfi], acrescentando uma sílaba que não existe e causando um forte erro fonético. Em segundo lugar, se a consoante em final de palavra for um /t/ou um /d/, é provável que ocorra a pronúncia [khætsh] em vez do correto [khæt] para a palavra cat, por exemplo, ou ainda [hætsh] em vez de [hæt] para a palavra hat, neutralizando desta forma o contraste natural entre estas palavras e resultando em erro fonológico.

eat [iyt] each [iytsh]
cat [khæt] catch [khætsh]
hat [hæt] hatch [hætsh]
rent [rent] wrench [rentsh]

D) As fricativas interdentais /Ø/ e /ð/, o famoso "th" do inglês, não encontram qualquer similar no português. A pronúncia só soará certa se a língua for colocada entre os dentes, exatamente como na figura abaixo. Estudantes brasileiros de ESL necessitarão de orientação e exercícios articulatórios para se habituarem a pronunciar estes fonemas de forma aceitável. O aluno normalmente apela para a combinação de consoantes /ts/ ou /dz/ como substitutos, o que não é aceitável, pois neutraliza o contraste entre palavras como:

math [mætØ] mats [mæts]
breathe [briyØ] breeds [briydz]

Há outros alunos que substituem as interdentais do inglês por /s/ e /z/, o que é ainda menos aceitável, uma vez que estes fonemas têm uma alta carga funcional, podendo acarretar a neutralização do contraste entre palavras como:

thin [ØIn] sin [sIn]
thick [ØIk] sick [sIk]
faith [feyØ] face [feys]
breathe [briyð] breeze [briyz]
clothing [klowðIŋ] closing [klowzIŋ]

E) As fricativas /s/ e /z/, quando em posição de final de palavra, têm carga funcional em inglês, isto é, são responsáveis por diferenciação entre palavras. Em português, entretanto, /s/ e /z/ não têm a mesma carga funcional quando em final de palavra, sendo que a ocorrência de um ou de outro vai ser determinada pela característica fonética do meio em que ocorrerem. A dificuldade daí resultante, pode produzir erros, conforme os seguintes exemplos:

ice [ays] eyes [ayz]
peace [phiys] peas [phiyz]
rice [rays] rise [rayz]

F) A retroflexa /r/ do inglês, de forma semelhante às interdentais (item D), não tem qualquer fonema semelhante na maioria dos dialetos do português (a única exceção é o dialeto da região de Piracicaba - SP). Portanto, alunos brasileiros não acostumados com a retroflexão da língua, terão que exercitar a articulação deste fonema (veja figura abaixo). Devido a interferência ortográfica, a retroflexa /r/ do inglês, quando ocorre no início da palavra, é facilmente interpretada como se fosse a fricativa velar /x/ do português, uma vez que ambas são representadas pelo grafema "r". Por outro lado, a fricativa glotal /h/ do inglês é muito próxima e semelhante à fricativa velar /x/ do português. A confusão resultante disto poderá causar a neutralização do contraste entre palavras como:

hat [hæt] rat [ræt]
head [hed] red [red]
high [hay] rye [ray]
hoe [how] row [row]

O fonema /r/ do inglês, dependendo do ambiente em que ocorrer, também poderá até vir a ser substituído pelo fonema /Ð/ do português, como em para ['paÐa], o que, além de causar um evidente sotaque estrangeiro (erro fonético), poderá causar também erro fonológico ao neutralizar o contraste entre palavras como:

bury ['beriy] Betty ['beÐiy]
curer ['kyuwrƏr] cuter ['kyuwÐƏr]

G) O som alveolar fricativo /s/ antes de /m/, /n/ ou /l/, em inglês, ocorre predominantemente em posição inicial na palavra, sendo neste caso sempre surdo - [s]. Em português, por outro lado, a mesma situação ocorre unicamente em posição intermediária na palavra, sendo a fricativa, neste caso, sempre sonora - [z]. Os alunos, portanto, terão uma forte tendência em articular palavras como smoke [smowk], snake [sneyk] e sleep [sliyp] como [zmowk], [zneyk] e [zliyp], produzindo desta forma um sotaque evidente, porém não erro fonológico.

H) Outra área que representa um problema em potencial para brasileiros estudantes de ESL é a que se refere a agrupamentos de consoantes. Ao contrário do português, que é notoriamente mais vocálico (rico em ocorrência vogais) e nasal, com um grande número de ditongos e até mesmo tritongos, inglês apresenta uma característica muito mais consonantal. No português, as únicas consoantes que ocorrem em posição final na palavra, são os fonemas /Ð/, /l/ e /s/. Também não existem no português agrupamentos de consoantes em final de palavra, exceto em algumas palavras de origem estrangeira. Portanto, os agrupamentos de consoantes do inglês, especialmente aqueles em final de palavra, representarão um certo grau de dificuldade. Haverá um grau ainda maior de dificuldade, se o agrupamento de consoantes incluir as interdentais /Ø/ ou /ð/, conforme os seguintes exemplos:

asked [æskt] advanced [Əd'vænst]
twelfth [twelfØ] depth [depØ]
strengths [streŋkØs]
****************** ****************** ****************** ****************** ****************** ****************** ****************** english

English and Portuguese consonant phonemes compared

When we here refer to consonants, we mean sounds (phonemes). We do not refer to letters of the alphabet (graphemes).

The realization of consonants generally corresponds to places at which the articulators come close together and obstruct the vocal tract. These points of articulation normally can be clearly pointed out and can easily identify the distinctive features of the sounds produced. Unlike vowels, which are continuous and stepless sounds that are similar but hardly ever match perfectly across languages, consonants usually match closely enough to permit easy transference or, in some cases, do not match at all.

English consonant phonemes

Standard American dialect

Position B
I
L
A
B
I
A
L
L
A
B
I
O
D
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A
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I
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E
O
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P
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A
L
V
E
L
A
R
G
L
O
T
T
A
L
manner VL VD VL VD VL VD VL VD VL VD VL VD VL
stops p b t d k g
affricates tsh dzh
fricatives f v Ø ð s z sh zh h
nasals m n ŋ
retroflexes r
laterals l
flaps occur only on the phonetic level. Ex: water ['waÐâr]1
trills never occur in English, except in Scottish
glides w y
Sigla
VL Voiceless - sem vibração das cordas vocais
VD Voiced - acompanhado de vibração das cordas vocais

Os fonemas consoantes do português ocorrem tais como nas palavras:

/p/ pill [phIl]
/b/ bill [bIl]
/t/ till [thIl]
/d/ day [dey]
/k/ kill [khIl]
/g/ goal [gowl]
/tsh/ cheap [tshiyp]
/dzh/ Joe [dzhow]
/f/ fan [fæn]
/v/ van [væn]
/Ø/ think [ØIŋk]
/ð/ this [ðIs]
/s/ sink [sIŋk]
/z/ zinc [zIŋk]
/sh/ ship [shIp]
/zh/ casual ['khæzhwəl]
/h/ house [hawz]
/m/ make [meyk]
/n/ night [nayt]
/ŋ/ long [loŋ]
/r/ red [red]
/l/ late [leyt]
/w/ wine [wayn]
/y/ yes [yes]

Probable errors with consonants:

There are two types of errors: phonetic error and phonological error.

Phonetic error causes primarily foreign accent, making the speaker tiring to the native listener.

Phonological error can cause misunderstanding in the communication.

These are the most common errors with the English consonants made by Portuguese native speakers.

A) The aspiration of the English voiceless stops /p/, /t/ and /k/, when occurring word-initially or at the beginning of stressed syllables, has no equivalent in Portuguese. The transference of the Portuguese unaspirated stops will result primarily in a clear foreign accent (phonetic error), with the possibility of misunderstanding (phonological error), since they could be perceived as /b/, /d/ and /g/ by English native speakers. For example: the word pig [phIg] if pronounced as [pIg], without aspiration, could be perceived as big [bIg].

B) The English alveolar stops /t/ and /d/ correspond in Portuguese to apicodental stops. That is, the point of articulation in Portuguese is slightly more forward. But this difference has no significant ill effects. Learners of ESL and PSL will experience difficulty however when /t/ and /d/ occur before /iy/ or /I/, with possibility of phonological error. There are no /ti/ or /di/ sounds in Portuguese (except in some dialects of the northeast, Santa Catarina and some border areas of Rio Grande do Sul), as alveolar stops are automatically palatalized in the presence of a high front vowel. Whenever /t/ or /d/ occur before /i/, they become respectively /tshi/ and /dzhi/, as in words like leite ['leytshi] and pode ['pódzhi]. This Portuguese phenomenon, if transferred to English, will neutralize the contrast between words like:

Since the English phonemes /iy/ and /I/ carry a very heavy functional load, it becomes more important to avoid this Portuguese interference.

C) All the stops, /p/, /b/, /t/, /d/, /k/ and /g/, the affricates /tsh/ and /dzh/, and the fricatives /f/, /v/, /Ø/, /ð/, /sh/ and /zh/, occur in word-final position in English, while in Portuguese the corresponding phonemes never do. As a result, ESL students will tend to add a vowel sound to these word-final consonants so that words like back [bæk]and knife [nayf] might be pronounced ['bæki] and ['nayfi], adding a syllable to the word and producing an obvious phonetic error. Secondly, if the word-final consonant is a /t/ or a /d/, the likely outcome will be, for instance, [khætsh] instead of [khæt] for cat, or [hætsh] instead of [hæt] for hat, thus neutralizing the contrast and giving way to phonological error in words like:

D) The interdental fricatives /Ø/ and /ð/ have no close counterparts in Portuguese and learners will need articulatory orientation and exercise in order to achieve an acceptable level of production. Commonly, students resort to the clusters /ts/ or /dz/ as substitutes, which neutralize the contrast between words like:

Other students might use /s/ and /z/ as substitutes, which is still less desirable because /s/ and /z/ have a heavy functional load and this substitution could result in the neutralization of minimal pairs like:

E) The fricatives /s/ and /z/ in English carry functional load when occurring in word-final position. In Portuguese however /s/ and /z/ are not contrastive in final position, the occurrence of either being conditioned by the environment. Therefore students will have difficulty which can lead to phonological error in minimal pairs like:

F) Like the interdentals (item D), the English retroflex /r/ does not have a similar sound in Portuguese, except in one dialect in certain areas of the state of São Paulo. Therefore most Brazilian students will need articulatory exercises (see picture below). Because of spelling interference, the English retroflex /r/ in word-initial position is easily misinterpreted as the the Portuguese velar fricative /x/ (both are represented by the same grapheme). On the other hand, the English glottal fricative /h/ is close and similar to the Portuguese velar fricative /x/. Therefore students will easily be confused and neutralize the contrast in minimal pairs like:

Until acceptable production of the English retroflex /r/ is attained, Portuguese native speakers could substitute it with the Portuguese flap /Ð/, depending on the environment it occurs. This would produce an obvious foreign accent and the possibility of phonological error:

G) The alveolar fricative phoneme /s/ before /m/, /n/ or /l/ in English occurs predominantly in word-initial position, and then it is always voiceless - [s]. In Portuguese, however, it only occurs in middle position and is always voiced - [z]. Students will therefore persist in articulating words like smoke [smowk], snake [sneyk] and sleep [sliyp] as [zmowk], [zneyk] and [zliyp], producing an obvious foreign accent but no phonological error.

H) Another area that can be identified as a potential problem for Brazilian ESL students refers to consonantal clusters. In contrast with Portuguese, with its rich vocality and nasality and large number of diphthongs and even triphthongs, English has a strong consonantal character. In Portuguese, the only consonants that occur in word-final position are the phonemes /Ð/, /l/ and /s/; consonantal clusters, except for a few foreign words, do not occur at all. Therefore, particularly difficult will be the clusters occurring in word-final position, with an even higher degree of difficulty being experienced by students in the realization of English consonantal clusters which include the interdentals /Ø/ or /ð/, as in the following examples:

Veja também

References