O PAPEL DO GOVERNO NA ERRADICAÇÃO DO MONOLINGUISMO

Ricardo Schütz
Atualizado em junho de 2014

Nada cresce do nada. É preciso a semente. Para disseminar línguas e culturas estrangeiras no país precisamos trazer representantes dessas línguas e suas culturas. Nossos meios acadêmicos não têm como suprir esta necessidade.

LEGISLAÇÃO DESATUALIZADA

Em face da globalização do mundo e da urgente necessidade de se falar a língua da comunidade global, em países de língua não-inglesa há muito tempo predominam os falantes nativos como instrutores de língua estrangeira. Exemplo disso são o Japão, a Coréia, a Suécia e Israel. No Japão, além de cursos de línguas se utilizarem maciçamente de instrutores estrangeiros, há mais de 15 anos o ministério de educação japonês mantém centenas, se não milhares, de estrangeiros falantes nativos de inglês como instrutores-consultores em escolas da rede pública. Na Suécia, há mais de 20 anos, a rede escolar oferece ambientes de language acquisition com falantes nativos, e a população é praticamente bilíngue a partir da escola secundária.

No Brasil, o Ministério da Educação reconhece a necessidade de se conceber um ensino de idiomas estrangeiros objetivando a comunicação real; reconhece também que são raras as oportunidades que o aluno tem para ouvir ou falar a língua estrangeira. Entretanto, os dispositivos existentes que hoje regulamentam a situação do estrangeiro, emanam do Ministério do Trabalho, ao invés de emanar do Ministério da Educação. E esta regulamentação desconhece a importância do nativo na língua e na cultura estrangeira – portador daquilo que buscamos e que para cá viria motivado não por ganhos financeiros, mas sim pelo interesse acadêmico na língua, na cultura e na realidade brasileira. Não há reconhecimento nem enquadramento específico para o disseminador de línguas e culturas estrangeiras que aqui chamamos de "facilitador".

Facilitador é aquela pessoa que, com sua língua e bagagem cultural, voluntariamente se oferece para construir relacionamentos de amizade com pessoas de diferente formação cultural com objetivos de aprendizado recíproco. É portanto um agente de intercâmbio cultural. É aquele que procura transmitir a naturalidade com que se expressa na sua língua mãe ao parceiro-aluno, abrindo-lhe espaço, desenvolvendo-lhe a autoconfiança e a autoestima. É aquele que se coloca num plano de igualdade e não de superioridade. Usa de empatia e explora o plano afetivo. Constrói um relacionamento com o aluno, no qual o desejo de comunicar é maior do que qualquer conteúdo didático a ser cumprido. O facilitador é aquele que procura ver a realidade pela ótica do outro, identificando e analisando diferenças culturais. É aquele que se solidariza e se projeta dentro do parceiro-aluno e ajuda-o a se expressar em linguagem correta e elegante.

Indiferente ao desenvolvimento científico na área da linguística aplicada, a legislação brasileira não contempla o facilitador e agente cultural estrangeiro com uma definição específica, equiparando-o ao professor de língua e literatura dentro daquele conceito tradicional, de pessoa com qualificação acadêmica voltada à função de transmitir conhecimento sobre a estrutura gramatical do idioma estrangeiro ou sobre suas artes literárias. A autoridade administrativa de escalão inferior, por sua vez, sem orientação específica, produz uma interpretação restrita do único texto legal existente, e enquadra o facilitador como mão-de-obra estrangeira tomadora de oportunidades da mão-de-obra nacional.

A partir de novembro de 2010, novas resoluções normativas do Conselho Nacional de Imigração (subordinado ao Ministério do Trabalho) esvaziaram o papel das organizações de intercâmbio brasileiras agravando o problema.

DESEMPREGO

Entre 2006 e 2011, houve um aumento nos vistos de trabalho para estrangeiros de 143,7%. Só em 2012, foram concedidas 73.022 autorizações de trabalho a estrangeiros. É justa a preocupação do Ministério do Trabalho com o desemprego causado pela evasão de postos de trabalho para estrangeiros. É importante, entretanto, esclarecer que esta evasão ocorre principalmente nos níveis executivos, onde também é mais representativa por envolver alta remuneração. Evidentemente uma das causas desse problema é a falta da proficiência em língua e cultura estrangeira hoje exigida no mercado de trabalho da economia globalizada e dificilmente encontrada no Brasil.

EVASÃO DE DIVISAS E PRIVILÉGIO RESTRITO ÀS CLASSES ALTAS

Sendo esta proficiência linguística e cultural uma necessidade cada vez mais premente e difícil de ser alcançada no Brasil, são hoje já cerca de 50.000 pessoas por ano (Correio do Povo 6/8/02) que viajam ao exterior com o objetivo de assimilar a língua e a cultura dos países de língua inglesa. Cada um gasta, em média, de 4.000 a 10.000 dólares em suas viagens de estudos. Além de representar evasão de divisas, tal situação se constitui num privilégio quase exclusivo de classes sociais afluentes. Se programas semelhantes forem constituídos no Brasil, ajudarão a refrear essa evasão de divisas ao mesmo tempo em que trarão a possibilidade de contato direto com representantes da cultura estrangeira ao alcance de um número significativamente maior de brasileiros.

CENTROS DE CONVÍVIO BICULTURAL: A SOLUÇÃO INTELIGENTE

BILINGUISMO AO ALCANCE DE TODOS: Se tornarmos possível a formação, no Brasil, de centros de convívio e de intercâmbio cultural de baixo custo com participação de falantes nativos funcionando como vetores de suas línguas e culturas, estaremos criando condições para formar indivíduos bilíngues aqui, proporcionando-lhes a ferramenta essencial para suas carreiras acadêmicas e profissionais na moderna sociedade globalizada, sem a necessidade de viajar ao exterior. De uma forma muito mais econômica, estaríamos oferecendo a muitos aquilo que hoje é privilégio de poucos.

VALORIZANDO E EXPORTANDO A LÍNGUA E A CULTURA BRASILEIRA: Esses centros de convívio e de intercâmbio cultural deverão ser estruturados de maneira a cumprirem uma dupla função: trazer-nos a língua e a cultura estrangeira, e difundir nossa língua e nossa cultura. As organizações mantenedoras destes centros, através de contatos com escolas e universidades do exterior, fazem a seleção dos participantes estrangeiros de acordo com seu interesse na língua e na cultura brasileira, e com suas qualificações. Os facilitadores estrangeiros, não na função de profissionais remunerados, porém de simples portadores de suas línguas e culturas e no papel de intercambistas ou até de clientes compradores da nossa língua e nossa cultura brasileira, não têm remuneração - recebem apenas uma ajuda de custo. Essas seriam condições básicas. Qualquer expectativa de remuneração de parte dos facilitadores fica compensada pela oportunidade de vivenciar o Brasil. Em paralelo, esse interesse na cultura brasileira é instrumental para desenvolver a auto-estima no aluno brasileiro, valorizando e preservando nossa identidade cultural.

Esses núcleos de convívio multicultural em escolas de ensino médio teriam também autonomia para estabelecer contato direto com organizações estrangeiras voltadas ao intercâmbio de jovens adolescentes, podendo oferecer, para seus alunos mais destacados mas menos privilegiados, oportunidades de intercâmbio no exterior em escola de mesmo nível a preços de custo, sem as altas taxas de intermediação cobradas pelas agências de intercâmbio brasileiras.

Uma vez implementados em escolas de ensino fundamental e médio da rede pública, tais centros representarão bilinguismo ao alcance de todos.

REFORMULAÇÃO DE CURSOS DE LICENCIATURA PARA ENSINO DE LÍNGUAS: Nos atuais cursos superiores de letras deverão ser desenvolvidos novos currículos voltados à licenciatura de profissionais com preparo para implementar e coordenar núcleos de convívio multicultural. Este novo profissional deverá ter sólidos conhecimentos nas áreas da linguística aplicada (psicologia cognitiva, metodologia, linguística comparada incluindo fonologia, vocabulário e gramática, ensino da língua materna para estrangeiros, etc.). Requisito para ingresso nesses programas será fluência (por exemplo, TOEFL 500 a 600) e plena competência cultural na língua cuja disseminação irão futuramente coordenar. Requisito para conclusão do programa, a exemplo do que ocorre em outros países, deverá ser um ou dois semestre de estudos no exterior, em país cuja língua e cultura se pretende futuramente ensinar.

Experiências pioneiras no Brasil já demonstram a viabilidade de tal empreendimento. Portanto, é grande a responsabilidade do poder público em abrir urgentemente as fronteiras culturais, facilitando a vinda de falantes nativos de línguas estrangeiras através de um enquadramento legal específico e burocracia simplificada, bem como incentivando a criação de organizações voltadas a intercâmbio linguístico e cultural e promovendo a isenção fiscal das mesmas.


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Schütz, Ricardo. "O Papel do Governo na Erradicação do Monolinguismo." English Made in Brazil <http://www.sk.com.br/sk-gover.html>. Online. 5 de junho de 2014.

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