Ricardo Schütz
Abril de 2008Aprender a falar um idioma estrangeiro consiste não apenas em assimilar seus elementos, mas também em evitar a interferência negativa da língua materna. Embora este tipo de interferência seja mais evidente na pronúncia, também ocorre no plano gramatical, levando o aluno a produzir freqüentemente frases desestruturadas e incompreensíveis. O próprio aluno normalmente sente que algo está errado, mas a idéia que ele está tentando colocar está tão intimamente associada à estrutura usada no português, que parece não haver outra maneira. O estudo comparativo de dois idiomas leva à clara identificação dessas diferenças entre eles e permite prever os erros bem como procurar evitá-los antes de se tornarem hábitos.
Este trabalho é resultado de uma minuciosa análise dos erros mais freqüentemente observados no ensino de EFL (English as a Foreign Language) a brasileiros. Muitos destes erros podem ser observados mesmo em alunos que já alcançaram níveis avançados de fluência, e resultam da falta de contato com a língua ou de um contato através de instrutores que falam um inglês "aportuguesado".
Além da interferência negativa da língua materna, temos aquela proveniente da generalização de regras do idioma estrangeiro; ou seja, da não-observância de exceções. Alguns destes pontos também são abordados neste trabalho.
1. Formulação de idéias interrogativas e negativas
2. The subtle presence of the verb TO BE - Presença/ausência do verbo TO BE
3. Subjectless sentences - Frases sem sujeito
4. There TO BE = ter (existência)
5. No TO after modals
6. A combinação impossível de FOR com TO
7. No double negative words
8. O numeral ONE e o artigo A(N)
9. No THE before names and other article problems
10. SAY and TELL
11. A FRIEND OF MINE ..., not MY FRIEND ...
12. UMA PESSOA = SOMEBODY
13. No TODAY and no IN before THIS ...(time)...
14. YOUR não é o mesmo que SEU (DELE, DELA)
15. I THINK SO não é o mesmo que I THINK (THAT) …
16. Countable & Uncountable Nouns - Uso Correto de seus Quantifiers
17. Countable & Uncountable Contrasts with Portuguese
18. Verb Transitivity Contrasted
19. Verb + Infinitive & Verb + Gerund
TO e FOR comparados a PARA
The Perfect Tense and its Portuguese equivalents
DICAS SOBRE COMO APRIMORAR SEU INGLÊS GRAMATICALMENTE
1. Formulação de idéias interrogativas e negativas: (erro comum apenas no início do aprendizado)
A primeira grande dificuldade que o brasileiro, falante nativo de português, iniciando seu aprendizado em inglês enfrenta, é normalmente a estruturação de frases interrogativas e negativas. Frases interrogativas em português são diferenciadas apenas pela entonação, não exigem alteração da estrutura da frase. No inglês, além da entonação, temos, no caso dos Be Phrases (frases com o verbo to be ou com qualquer outro verbo auxiliar ou modal), a inversão de posição entre sujeito e verbo:
E no caso de Do Phrases, frases em que não há verbo auxiliar, surge a necessidade de uso de verbo auxiliar DO para formular perguntas ou frases negativas:
Além de contrastarem profundamente em relação ao português, esses dois tipos de estruturas contrastam entre si. O contraste entre Be Phrases e Do Phrases aparece nos modos interrogativo e negativo. Be Phrases fazem a inversão de posição entre sujeito e verbo para formação de frases interrogativas ou negativas, não precisando de verbo auxiliar, enquanto que Do Phrases precisam do verbo auxiliar DO. Isto representa uma dupla e acentuada dificuldade para os falantes nativos de português, no qual praticamente não existem verbos auxiliares e a formação de frases não é afetada pelos modos (afirmativo, negativo e interrogativo). O modo interrogativo em português, como vimos no exemplo acima, consiste apenas em uma diferente entonação, enquanto que em inglês exige uma significativa alteração na estrutura da frase, além da entonação. A dificuldade não é de entender, mas sim de assimilar e automatizar. Quem fala português como língua materna não está acostumado a estruturar seu pensamento dentro destas normas e precisará praticar exaustivamente para conseguir "internalizar" essas estruturas.
Veja aqui uma tabela com as estruturas básicas do inglês.
2. The subtle presence of the verb TO BE - Presença/ausência do verbo TO BE (erro comum em nível iniciante)
Do ponto de vista fonético, em frases afirmativas, a presença ou não do verbo TO BE é quase imperceptível aos ouvidos do aluno principiante que está acostumado com a clara sinalização fonética da presença de qualquer verbo em português. Obviamente, a função gramatical de um verbo numa frase é preponderante. Portanto, se faltar onde deveria estar, ou se ocorrer quando não deveria, o erro é grosseiro. Observe os seguintes exemplos:
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I'm lost. |
Estou perdido. |
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It's hard work. |
Isto é trabalho duro. |
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They're like children. |
Eles são como crianças. |
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O aluno com este tipo de dificuldade deve treinar o ouvido e a pronúncia, até acostumar-se a perceber a grande diferença funcional deste pequeno detalhe fonético.
3. Subjectless sentences - Frases sem sujeito: (erro comum até níveis avançados)
Em português freqüentemente as frases não têm sujeito. Sujeito oculto, indeterminado, inexistente, são figuras gramaticais que no português explicam a ausência do sujeito. Isto no inglês entretanto não existe. A não ser pelo modo imperativo, toda frase em inglês normalmente tem sujeito. Na falta de um sujeito específico, muitas vezes o pronome IT deve ser usado.
Além da questão da presença obrigatória do sujeito, temos um problema com relação a seu posicionamento. Em português muitas vezes o sujeito aparece no meio ou no fim da frase. Em inglês ele deve estar de preferência no início da frase. Observe os seguintes exemplos:
Ao formar uma frase, o aluno deve acostumar-se a pensar sempre em primeiro lugar no sujeito, depois no verbo. O pensamento em inglês estrutura-se, por assim dizer, a partir do sujeito.
4. There TO BE = ter (existência):
(erro comum até níveis intermediários)
Em português o verbo TER tem pelo menos dois significados importantes: posse e existência. Exemplos:
Sempre que o verbo TER significar existência (haver), a frase não terá sujeito; e isto ocorre com muita freqüência em português. Em inglês, esta estrutura corresponderá sempre ao There TO BE. Observe os seguintes exemplos:
5. No TO after modals: (erro comum até níveis intermediários)
Os verbos modais (auxiliary modals) em inglês (can, may, might, should, shall, must), são verbos que nunca ocorrem isoladamente; ocorrem apenas na presença de outro verbo. Ao contrário dos demais verbos, entretanto, os modais ligam-se ao verbo principal diretamente, isto é, sem a partícula TO. Observe os seguintes exemplos:
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O aluno principiante deve cuidar especialmente com o verbo CAN, que é usado com muita freqüência. Uma forma de internalizar estas estruturas é decorar exemplos como os acima.
6. A Combinação impossível de FOR com TO: (erro comum até níveis intermediários)
O fato de ser o infinitivo em inglês formado pelo verbo precedido da preposição TO, aliado ao fato de ser comum em português a colocação de idéias do tipo VERBO + PARA + VERBO NO INFINITIVO, induz o aluno freqüentemente a colocar a mesma idéia em inglês usando a combinação das preposições FOR + TO. Esta entretanto é uma combinação impossível, não ocorrendo jamais em inglês. Observe nos seguintes exemplos as alternativas corretas:
Como regra geral, sempre que houver tendência de colocar FOR + TO, o aluno deve lembrar-se de simplesmente eliminar a primeira preposição.
7. No double negative words: (erro comum até níveis intermediários)
No português normalmente colocamos dupla-negações na mesma frase. Pronomes indefinidos como NADA, NENHUM, NINGUÉM, podem ser usados livremente em frases negativas. Isto em inglês é gramaticalmente incorreto. Exemplos:
8. O numeral ONE e o artigo A(N): (erro comum até níveis intermediários)
Quem fala português como língua materna, facilmente se confunde com o numeral ONE e com o artigo indefinido A, porque em português ambos são representados pela mesma palavra: UM. Exemplos:
Na maioria dos casos, é o artigo indefinido que deve ser usado. Observe os seguintes exemplos:
9. No THE before names and other article problems. (erros comuns até níveis intermediários)
Em ambas as línguas, inglês e português, existem artigos que se subdividem em definidos (o, os, a, as - the) e indefinidos (um, uns, uma, umas - a, an). Portanto, no uso de artigos há pouco contraste entre os dois idiomas, a não ser por alguns casos excepcionais.
a) Em português, em linguagem coloquial, é comum o uso de artigos definidos na frente de nomes próprios, enquanto que em inglês, salvo algumas exceções, isso jamais ocorre. Veja os seguintes exemplos:
Observe entretanto que para todos países cujos nomes dão uma idéia de coletividade, deve-se usar o artigo definido:
Também países cujos nomes expressam o tipo de organização:
10. SAY and TELL (erro comum até níveis avançados)
Os verbos SAY e TELL, embora praticamente sinônimos no significado (transmitir informação), gramaticalmente são diferentes. Ambos podem ser traduzidos em português pelos verbos DIZER e FALAR, sendo que TELL pode ser também traduzido por CONTAR. A diferença reside no fato de que com o verbo SAY, normalmente não há na frase um receptor da mensagem (objeto indireto); enquanto que com o verbo TELL o receptor da mensagem está normalmente presente na frase. Veja os exemplos:
He said "Good morning" to us. - Ele disse "Bom dia" para nós.
11. A FRIEND OF MINE ..., not MY FRIEND ... (erro comum até níveis intermediários)
Em português é muito comum introduzir-se um assunto dizendo: Meu amigo …, quando o mais correto seria talvez dizer: Um amigo meu …. Qualquer uma destas formas em inglês corresponde sempre a: A friend of mine …. Observe os seguintes exemplos:
12. UMA PESSOA = SOMEBODY (erro comum até níveis intermediários)
Freqüentemente brasileiros que falam inglês encontram dificuldade em usar os sinônimos SOMEBODY ou SOMEONE. Em português, a expressão "UMA PESSOA ...", que é muito comum, corresponde normalmente a SOMEBODY ou SOMEONE em inglês. Observe os seguintes exemplos:
13. No TODAY and no IN before THIS ...(time)... (erro comum até níveis intermediários)
Algumas expressões adverbiais de tempo como HOJE DE MANHÃ, NESTA MANHÃ, HOJE DE TARDE, NESTA TARDE, NESTE MÊS, etc., facilmente induzem o aluno a usar a palavra TODAY ou a preposição IN em inglês. Observe os seguintes exemplos:
14. YOUR não é o mesmo que SEU (DELE, DELA) (erro comum até níveis intermediários)
Devido ao fato de que português tem na 2a pessoa (você) o mesmo tratamento gramatical dado à 3a pessoa (ele ou ela), o aluno freqüentemente encontra dificuldade no uso correto dos pronomes possessivos em inglês. Por exemplo:
15. I THINK SO não é o mesmo que I THINK (THAT) … (erro comum até níveis intermediários)
I THINK SO é sempre uma frase completa, terminando em ponto final, e corresponde à expressão do português ACHO QUE SIM. I THINK … ou I THINK THAT … sempre introduz uma oração subordinada (relative clause), e corresponde a ACHO QUE … Por exemplo:
16. Countable & Uncountable nouns - uso correto de seus quantifiers (erro comum até níveis avançados)
O fato de alguns substantivos não serem normalmente usados no plural (ex: dinheiro), é irrelevante em português. Em inglês, entretanto, este fato é de relevância gramatical. A classificação dos substantivos em countable (contáveis, isto é, que podem ser contados) e uncountable (incontáveis, isto é, que não podem ser contados ou pluralizados. Ex: dinheiro, água) é de grande importância porque, dependendo da categoria, diferentes quantifiers terão que ser usados. Quantifiers são uma categoria de determiners, normalmente adjetivos, pronomes e artigos que quantificam substantivos.
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17. Countable & Uncountable contrasts with Portuguese: (erro comum até níveis avançados)
Na maioria dos casos existe correlação entre os substantivos de português e inglês. Isto é: se o substantivo for uncountable em português, também o será em inglês. Em alguns casos entretanto, essa correlação é traída, induzindo o aluno a erro. Exemplos:
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interest |
juros |
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real estate |
imóveis |
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bread |
pães |
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music |
músicas |
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microwave |
microondas |
software |
programas de computador |
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O fato de estes substantivos do inglês estarem aqui relacionados como uncountable, não significa que os mesmos não possam jamais ser usados no plural. Significa apenas que normalmente, em linguagem comum, não são usados no plural.
18. Verb transitivity contrasted (erro comum até níveis avançados)
Verbos podem ser transitivos diretos ou indiretos. Transitivo direto é o verbo que transita diretamente ao seu complemento. Por exemplo: TOMAR CAFÉ. Transitivo indireto é o verbo que transita ao seu complemento por intermédio de uma preposição. Por exemplo: TELEFONAR PARA O PAULO.
Inglês e português normalmente correspondem no que se refere a transitividade dos verbos. Isto é: se o verbo é transitivo direto em português, provavelmente também o é em inglês. Existem alguns casos, entretanto, em que essa correlação é traída. Por exemplo:
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Como pode-se ver nos exemplos acima, na maioria dos casos em que há discordância, o verbo em inglês é transitivo direto (D) enquanto que em português é transitivo indireto (I). A única exceção parece ser a do verbo listen.
19. Verb + Infinitive & Verb + Gerund (dificuldade comum até níveis avançados)
Ao contrário do português, em que um verbo normalmente só é seguido de outro no infinitivo (veja 2 exceções** abaixo), em inglês há verbos que são normalmente seguidos só de infinitivo, verbos que são normalmente seguidos só de gerúndio, e verbos que aceitam ambos. Essas situações correspondem ao que em português é classificado como "orações subordinadas substantivas objetivas diretas reduzidas de infinitivo" e em inglês como "nonfinite clause". Ocorrem sempre que o verbo for transitivo direto (exigir um objeto direto como complemento) e a complementação for feita com um segundo verbo (no infinitivo ou no gerúndio) que tem como sujeito implícito o mesmo sujeito do verbo principal.
a) Principais verbos do primeiro grupo (verb + infinitive pattern) (subjectless infinitive clause as direct object):
b) Principais verbos do segundo grupo (verb + gerund pattern) (subjectless gerund clause as direct object):
c) Principais verbos que aceitam ambos, sem mudança de significado:
Se a uma criança americana, que logicamente fala inglês fluentemente, lhe for perguntado porque usa o verbo auxiliar da forma que o faz, provavelmente ela ficará perplexa, pois não saberá nem sequer de que se trata a pergunta. É este domínio intuitivo, automático, inconsciente da estruturação gramatical do idioma que nos permite não apenas falar fluentemente e corretamente, mas também escrever. O aluno não precisa saber porque as estruturas são como são, desde que as formas corretas lhe soem melhor, mais familiar aos ouvidos. Controle sobre as estruturas gramaticais básicas da língua deve ser alcançado o quanto antes. É o primeiro grande passo no processo de aprendizado. Por esta razão, é fundamental que o aluno procure desde o início de seu aprendizado o contato com estrangeiros, na qualidade de instrutores ou não, de forma a expor-se unicamente a uma língua estrangeira autêntica, rica nos planos fonológico, idiomático e gramatical.
Uma grande diferença entre o português e o inglês está na forma de estruturar o pensamento. É na estruturação das frases que reside um dos principais contrastes entre as duas línguas. A dificuldade aparece quando o aluno tenta "traduzir" uma estrutura do português para o inglês, palavra por palavra. A correlação entre as duas línguas nem sempre ocorre em nível de palavras, mas sim em nível de frases. Além disso, cada língua tem suas peculiaridades idiomáticas. É preciso, pois, desenvolver uma associação direta entre as idéias e as formas usuais de expressar estas idéias, em nível de estrutura. Não se trata de aprender um sistema de regras, mas de adquirir familiaridade através de nossa memória auditiva com um conjunto de formas com todas suas irregularidades. Enquanto a mecânica básica de estruturação de frases não estiver plenamente assimilada e automatizada, muita energia mental será desperdiçada para montar a frase. É preciso adquirir total familiaridade para que o esforço mental possa concentrar-se em vocabulário, na idéia, na criatividade. As técnicas dos métodos audiolingüísticos de memorização de textos ou diálogos e prática exaustiva das estruturas através de exercícios de substituição e repetição proporcionam normalmente bons resultados num estágio inicial. Além da técnica audiolingüística baseada em memorização auditiva e repetição mecânica, é fundamental implementar a internalização completa das novas estruturas através de um esforço criativo-comunicativo. Se o aluno procurar adaptar os elementos da língua estrangeira à sua realidade, usando estruturas corretas para expressar suas opiniões e apresentar sua maneira de pensar, e fizer disto um hábito, uma espécie de hobby mental, os resultados serão surpreendentes.
Leia aqui sobre como escolher um bom curso de inglês