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Professor nativo x não-nativo

Ricardo E. Schütz

Os termos "nativo" e "não-nativo" incluem certa dose de generalização e, como toda generalização, são imprecisos. Eles aqui serão usados como sendo nativo, aquele indivíduo que possui um bom grau de instrução em seu país de origem e um domínio limitado da língua materna do aluno (português). Não-nativo aqui é aquele que possui plena funcionalidade na língua-alvo (inglês), porém com limitações e perceptíveis desvios de pronúncia e idiomáticos, além de possuir valores culturais predominantemente brasileiros.

O professor não-nativo vai preferir uma abordagem de ensino mais dedutivo-lógica. Vai ter uma tendência a transmitir suas experiências ao longo de seu aprendizado e suas conclusões a respeito. Vai tender a ser mais técnico e analítico, mostrando os contrastes entre os idiomas e explicando o porquê dos desvios do aluno. Será basicamente um transmissor de conhecimento e se sentirá muito confortável seguindo um plano didático predeterminado para ordenar o conteúdo e reduzir as possibilidades de se defrontar com suas limitações.

Já o instrutor nativo, uma vez que ele não tem pleno domínio sobre a língua e a cultura do aprendiz, vai preferir apenas usar suas habilidades pessoais para construir um relacionamento com o aprendiz, trazendo sua maneira de falar, de pensar e de ser. Tentará se adaptar à expectativa do aprendiz, trazendo temas gramaticais, culturais, ou gerais, simplesmente explorando os laços de amizade no grupo do qual participa. Será um transmissor da língua e um agente cultural, e se sentirá bem num programa que lhe dê liberdade de improvisar. Enquanto que o não-nativo irá desempenhar um papel predominantemente de professor, o nativo atuará mais como um facilitador.

No papel de transmissor de conhecimento gramatical, o não-nativo é normalmente superior; no papel de modelo de performance, principalmente com relação a pronúncia, expressões idiomáticas e formas de expressar o pensamento, o nativo é insuperável.

Com professor não-nativo, é inevitável o uso da língua materna para traduzir e explicar vocabulário, ao passo que, com nativos, o aprendiz fica naturalmente obrigado a negociar significados para desenvolver seu vocabulário. A negociação de significados, como se sabe, é instrumental na construção do conhecimento linguístico e da habilidade comunicativa.

Frente a erros, o não-nativo terá mais facilidade em entender a linguagem com desvios do aluno e, consequentemente, dificuldade em discernir entre o que seria linguagem inteligível e ininteligível para saber quando intervir e proporcionar o devido feedback. O nativo, por sua vez, além de ter mais facilidade para perceber e corrigir desvios inteligíveis, reagirá de forma natural e autêntica cada vez que ouvir linguagem ininteligível.

Se o professor não-nativo não for um bom ator e não souber representar o papel de um nativo, cairá no hábito de trazer conclusões já mastigadas e experiências de segunda-mão, as quais terão que ser armazenadas pelo aluno, correndo o risco de serem esquecidas em pouco tempo. Já o nativo propicia situações reais de comunicação onde o aprendiz, no papel de protagonista, descobre por si próprio as diferenças e os contrastes idiomáticos e culturais nas situações que ele vivencia nesse convívio com o instrutor. O aprendiz constrói assim seu próprio conhecimento a partir de suas experiências e chega a suas próprias conclusões. É experiência em primeira mão, pedra bruta que, ao ser lapidada, desenvolve a habilidade do lapidador.

Se na relação ensino-aprendizado, acreditarmos que o êxito depende mais do ensino, onde um professor desempenha o papel ativo e o aluno se submete passivamente ao "método", devemos dar preferência a um não-nativo. Entretanto, se entenderrmos que no processo ensino-aprendizado o êxito depende mais do aprendizado por parte do aprendiz, o qual desempenha um papel ativo e assume as rédeas do desenvolvimento de suas habilidades, de acordo com suas necessidades, motivado pelas circunstâncias e pelos desafios do ambiente em que se encontra, então teremos que dar preferência ao instrutor nativo.

Ou seja, se nosso conhecimento é construído a partir de informações recebidas de terceriros, o não-nativo é a pessoa ideal para nos transmitir essas informações. Entretanto, se nosso conhecimento é construído a partir de experiências vivenciadas, devemos dar preferência a vivenciá-las com nativos. No plano da hipótese learning vs. acquisition de Stephen Krashen, o não-nativo é ideal para um programa de ensino inspirado por learning (plano didático, estudo formal), enquanto que o nativo é o ideal para proporcionar um aprendizado inspirado por acquisition (assimilação natural em ambientes da língua-alvo).

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