A IMPORTÂNCIA DA PRONÚNCIA

Ricardo Schütz
Atualizado em 28 de abril de 2008

Garranchos e letra de médico estão para o texto datilografado,
assim como sotaque estrangeiro está para a pronúncia nativa.

Messy writing and doctor’s scribbles are a poor representation of written language
in the same way that foreign accent is a poor imitation of native speech.

 

INTRODUÇÃO

As comunidades humanas, desde suas mais remotas origens, sempre souberam se comunicar oralmente. A fala é talvez a mais importante das características que distinguem o ser humano no reino animal e que lhe possibilitam se organizar em sociedade. Nem todas as línguas entretanto chegaram a se desenvolver em sistemas escritos. Além disso, não há ser humano normal que não saiba falar sem limitações, porém só recentemente na história da humanidade é que a maioria começou a desenvolver a habilidade de escrever, muitos até hoje com limitações.

No community has ever been found to lack spoken language, but only a minority of languages have ever been written down. Likewise, the vast majority of human beings learn to speak, but it is only in recent years that some of these people have learned to write. (David Crystal 123)

Língua é fundamentalmente um fenômeno oral. Nunca é demais salientar a importância da forma oral da língua. A forma escrita é mera decorrência da língua falada.

A language is a complete, complex, changing, arbitrary system of primarily oral symbols learned and used for communication within the cultural framework of a linguistic community. (Hammerly 26, meu sublinhado)

Estudar pronúncia, portanto, é olhar para aquilo que não se enxerga mas que é a essência da língua.

... speech is therefore the basic form of language. This leads us to the conclusion that speech should be emphasized in second language teaching ... (Hammerly 37)

Domínio sobre a língua falada começa com o entendimento oral, e este começa com o reconhecimento das palavras contidas no fluxo de produção oral. Conseguir isolar cada conjunto de fonemas correspondentes a cada unidade semântica (palavra), dentro da seqüência ininterrupta de sons no fluxo da produção oral, é um desafio considerável.

   German Coast Guard — a importância de uma boa pronúncia

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A grandeza deste desafio é melhor compreendida se considerarmos também que o aparelho articulatório de sons do ser humano (cordas vocais, cavidade bucal, língua, etc.) mostra-se extremamente limitado quando comparado ao universo de conhecimento e comunicação criado por sua mente. Para fazer par a este imenso universo lingüístico e poder representá-lo oralmente, é necessário flexibilizar ao máximo o aparelho articulatório, criando diferenças ínfimas na articulação de sons, as quais adquirem grande importância e exigem nosso aparelho auditivo ao máximo.

Além disso, o uso que o ser humano faz de seu aparelho articulatório para comunicar-se varia consideravelmente de idioma para idioma, o que explica o porquê de ser na pronúncia que a interferência entre duas línguas se torna mais evidente e é mais crítica. A interferência fonológica da língua materna na língua estrangeira que se aprende, na maioria dos casos permanece para sempre, mesmo com pessoas que já adquiriram pleno domínio sobre o vocabulário e a gramática da língua estrangeira.

Aquele que fala uma única língua invariavelmente acredita que os sons de sua língua correspondem a um sistema básico universal de sons da fala do ser humano. Esta idéia preconcebida normalmente prevalece ao longo do aprendizado da língua estrangeira e, enquanto persistir, interfere negativamente na percepção e na produção oral do estudante. Em um artigo (veja bibliografia) sobre interferência fonológica, Flege escreveu:

Language learners who perceive sounds in the target language to be phonologically identical to native language sounds (despite possible phonetic differences between the two languages) may base whatever phonetic learning that does occur during the acquisition process on an acoustic model provided by pairs of similar sounds in two languages, rather than on a single language-specific acoustic model as in first-language acquisition. (443) Estudantes de idiomas que acreditam ouvir na língua estrangeira sons quase idênticos aos da língua materna (apesar de talvez reconhecerem pequenas diferenças fonéticas entre as duas línguas) irão basear sua pronúncia ao longo do processo de aprendizado num modelo acústico resultante de pares de sons semelhantes das duas línguas, em vez de baseá-la no modelo acústico específico da língua estrangeira, assim como ocorre no aprendizado da língua materna. (443, minha tradução)

Em palavras simples, o que Flege quer dizer é o óbvio: que os ouvidos do aprendiz não irão reconhecer os sons da língua estrangeira como eles realmente são. Este é um forte argumento em favor de um estudo fonológico detalhado dos contrastes entre a língua materna e a língua que se busca aprender - condição imprescindível para um bom professor de inglês. Uma apresentação detalhada dos dois sistemas fonológicos ajudará o aluno a tomar consciência cedo de que os sons de um e outro idioma não são exatamente iguais, e que essas diferenças podem ser relevantes no significado, afetando o entendimento.

DIFERENÇAS DE PRONÚNCIA ENTRE PORTUGUÊS E INGLÊS:

Diferentes línguas podem ser dois códigos de comunicação totalmente diferentes; ou, em alguns casos, até mesmo concepções diferentes de interação humana como resultado de profundas diferenças culturais. Este é, por exemplo, o caso do idioma japonês, quando comparado a qualquer uma das línguas européias. É necessário ter uma mente japonesa, dizem, para se poder falar japonês corretamente - o que sem dúvida é verdade.

Felizmente as diferenças entre português e inglês não são tão profundas. Devido a origens comuns - a cultura grega, o Império Romano e seu idioma, a religião Cristã, etc. - todas as culturas européias e suas línguas podem ser consideradas muito próximas no contexto amplo das línguas do mundo. Poderíamos, por exemplo, dizer que a língua espanhola é quase irmã gêmea do português; a língua italiana, sua meia-irmã; o francês, seu primo; e o inglês, talvez um primo de segundo grau.

Além das origens comuns que diminuem diferenças culturais, semelhanças lingüísticas entre inglês e português ocorrem predominantemente apenas no plano de vocabulário, quando na forma escrita. Estruturação de frases e, especialmente pronúncia, apresentam profundos contrastes. Numa análise superficial das diferenças no plano da pronúncia, podemos relacionar as seguintes diferenças:


CONCLUSÕES


ORIENTAÇÕES PARA UMA BOA PRONÚNCIA

O momento ideal para o desenvolvimento de uma boa pronúncia de uma língua estrangeira é a infância e, no caso de adolescentes e adultos, é o início do aprendizado, quando o aluno forma a matriz fonológica da língua e quando desvios de pronúncia tendem a cristalizar-se. No aprendizado de uma língua como inglês, cuja correlação entre ortografia e pronúncia é extremamente irregular, é importante intensificar o contato com a língua falada logo no início do aprendizado, evitando o contato prematuro excessivo com a forma escrita. Veja: Correlação entre pronúncia e ortografia.

Diferentes pessoas podem ter diferentes graus de acuidade auditiva, influenciando o grau de dificuldade em perceber a sutileza de certas diferenças relevantes, bem como o grau de precisão com que vão reproduzir os sons da língua estrangeira. Por esta razão, é recomendável que se faça uma avaliação audiométrica - um exame de audição feito por fonoaudiólogos que determina exatamente o quanto a pessoa ouve, da mesma forma que um exame de oculista avalia a visão.

Independentemente do grau de acuidade auditiva do aprendiz, a qualidade do input recebido pelo aluno é o fator mais importante. Por isso, é fundamental buscar-se um instrutor de excelente pronúncia. Se o instrutor não for falante nativo, deve ter no mínimo um ano e meio (TOEFL 600+) de experiência em país de língua inglesa.

Infelizmente, fica difícil para um aluno principiante distinguir uma boa pronúncia de uma pronúncia distorcida pela interferência da língua materna (sotaque estrangeiro). Isso torna o principiante uma presa fácil de cursos menos sérios. Por isso é sempre recomendável procurar conhecer o inglês de seu futuro instrutor na presença de um amigo que fale inglês muito bem, ou bem suficiente para reconhecer uma boa pronúncia. Lembre-se: não é o nome da escola nem a suposta metodologia por ela usada que farão a diferença, mas sim as qualidades pessoais do instrutor. Veja aqui o que é um bom instrutor.

É importante também adquirir noções de fonologia para conscientizar-se da existência de diferenças, e identificá-las individualmente. A partir daí, o aluno deve exercitar os novos sons. Veja: Diferenças de pronúncia entre inglês e português.

Para adquirir-se não apenas a correta pronúncia de fonemas, mas também a acentuação tônica das palavras e a entonação da frase, desde o início do aprendizado, é necessário ao aluno desenvolver a arte da imitação e sempre consultar uma fonte autorizada: um native speaker ou uma pessoa que fale com boa pronúncia, um dicionário com símbolos fonéticos, ou ainda os modernos speaking dictionaries, dicionários eletrônicos de bolso que reproduzem som.

SPEAKING DICTIONARIES

Os modelos inglês-inglês da linha Franklin: o novo SCD-1870 Merriam-Webster, o modelo anterior LM6000B, ou ainda os modelos MWS-1840 ou SCD-770, custam de 120 a 200 dólares e são muito bons.

O modelo ECTACO Partner EE586HT, que custa 400 dólares, possui alta sofisticação eletrônica. Além do dicionário principal (inglês - inglês), o ECTACO contém dicionários bilíngües (inglês => francês, alemão, espanhol, italiano e português). Outra vantagem do ECTACO é que ele apresenta a transcrição fonética, recurso que os demais dicionários eletrônicos não possuem. Entretanto, como nada é perfeito, naquilo que realmente interessa, que é o dicionário inglês-inglês e a pronúncia das palavras, o ECTACO apresenta uma grave deficiência: não contém advérbios derivados. Por exemplo, se você procurar pela palavra "especially", o mais parecido que encontra é "especial". Até substantivos derivados como por exemplo "misconception" e adjetivos como "unsuccessful", o ECTACO infelizmente não contém em seu banco de dados.

Outra desvantagem do ECTACO em relação ao Franklin LM6000B é a alimentação. O ECTACO funciona com 2 pilhas tipo AAA que são caras e duram pouquíssimo tempo, enquanto que o Franklin funciona com 4 pilhas AA que, uma vez colocadas, você até esquece.

Também da ECTACO existem os modelos Inglês - Português - Inglês Language Teacher - EPg2200T e Partner EPg400T.

Existem também dicionários na forma de CD-ROMs para microcomputadores com reprodução de sons, os quais entretanto não oferecem a mesma praticidade dos dicionários Franklin. Existe ainda o dicionário Merriam-Webster OnLine.


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BIBLIOGRAFIA:

Avery, Peter and Susan Ehrlich. Teaching American Pronunciation. Oxford, 1995.
Chomsky, Noam, and Morris Halle. The Sound Pattern of English. New York: Harper, 1968.
Crystal, David, The Cambridge Encyclopedia of Language. Cambridge University Press, 1997.
D'Eugenio, Antonio. Major Problems of English Phonology. Foggia, Italy: Atlantica, 1982.
Flege, James Emil. "The Phonological Basis of Foreign Accent: A Hypothesis". TESOL Quarterly 15 (1981): 443-455.
Fromkin, Victoria and Robert Rodman. An Introduction to Language. Fort Worth, TX: Harcourt Brace College Publishers, 1974.
Gernsbacher, Morton Ann. Handbook of Psycholinguistics. Academic Press, 1994
Hammerly, Hector. Synthesis in Second Language Teaching. Blaine, Wash.: Second Language Publications, 1982
Katz, Jack and Kim L. Tillery. "An Introduction to Auditory Processing". Audição: Abordagens Atuais 1997.
Mazurkiewicz, Albert J. Teaching about Phonics. New York: St. Martin's, 1976.
McArthur, Tom. The Oxford Companion to the English Language. Oxford, 1992.

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Schütz, Ricardo. "Diferenças de Pronúncia entre Inglês e Português." English Made in Brazil <http://www.sk.com.br/sk-pron.html>. Online. 28 de abril de 2008.

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